quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Um outro canto

Fiquei olhando a melancolia dos passarinhos,
engaiolados na varanda vizinha.
Mau trato do ultrapassado limite de prender para si.
Perdidas ilusões de quem se acalma
ao cantar de um eco triste-melodia,
que antecede uma plumada
a debandar em vôo curto,
pra pousar amargamente à lateral da grade branca.
Engana-se quem acha que eles deixaram-se prender,
ou que estão melhor ali que no seu pouso natural...
As aves são preclaras, naturalmente nobres...
distintas das caninas viralatices
que se rendem a desejos e afagos eventuais.
Quem vê o planeta tão de cima
nunca mais se habitua ao rés do chão.

João F. A. Cunha

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

“Neve no vulcão”

Quando ela saiu da geladeira, feito fruta da feira passada, já não havia dentro de si o que semear, e ela murchou. A menina fez dos seus dias uma interminável colheita de lamentações.
Nada foi do que poderia ter sido e o destino inadiável se remediou no silêncio. Quantas palavras engolidas, quantos gemidos inconscientes...
Sua mente em desfragmentação tentava apagar os arquivos indesejados, mas ela... nada. Impregnada de desejos-incontrolados, se autodescongelava e partia novamente em busca de seu coração.
A visão do mundo era sublime... era cegueira... era censura própria, como o ópio mais doce que não se deseja provar.
A solidária tristeza que tinha por seu próprio amor, desfiava-se ao longe... e ela ia aprendendo pouco a pouco como era ser pouco feliz. Mas era a felicidade constante de um trem-fantasma e não aquela parca alegriainfeliz de montanha-russa, a que ela então se tencionava. Era a felicitude despercebida... desgostosa... des-pedida...
De repente, isso tudo não era mais só cozinha, nem sala ou quarto... tornou-se sua morada em si... e sua personal-habitação. Tomada por uma confiança invadida, sem-terra e sem-teto, ela enfim admitiu-se livre.
Era tudo para ela... era ela para tudo... tudo para ela era... Para ela... tudo!
E fugiu.


João F. A. Cunha

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Dia-a-dia professor

O cuidado com as palavras,
com a inocência da juventude,
e uma vida soterrada de livros...
sejam novos ou antigos,
simplesmente rejuvenesce,
como Dona Cléo Berardinelli!

João F. A. Cunha
15/10/2009
Hoje o céu me vem gelado em lágrimas,
soluços de trovoadas...
Hoje o ontem parece distante
e todo novo dia não sai do lugar.
Mas cada verão desperta
e desenreda a reaquecer
o que ainda espera pra chegar...
Desatinado a se predestinar,
despretensiosamente, sigo.
Alcançando o caminho do acaso,
em sombras de dúvidas,
em sobras de incoerências.
Definitivamente perdido...
sem muito poder precisar.
Observo os Sinais, cordilheiras de impressão
e procuro intensamente a felicidade,
como água no deserto.
Enfim, assim espero
ansioso a futura estação...
numa certeza indesejada,
de que a lua estará mudada,
de que o mar estará melhor.


João F. A. Cunha

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Leituras que nos trans-tornam

A Ondjaki


Em torno do que revejo,
dos desejos que me consomem,
de entender tudo de tudo,
(des)aprendi o que achava que devia fazer.

Com os da minha infância,
deixei de lado os sapatos novos
pra correr na rua, de pé no chão,
vivenciando um tropeçar só meu.
Murmurei com minha própria história,
numa incontida ânsia, sem glória,
de re-bater o que já se foi...

Salteando pelas folhagens
onde, aqui confesso,
estanquei ante um menino,
incapaz de avançar...
simplesmente desaguei!
Foi o calção-verde-obscuro
que delicado como nunca vi,
que suave como um tufão,
mostrou-me o vero sentido
da palavra desapaixonar,
e o cheiro da primeira ilusão!


João F. A. Cunha

Dando nó em pingo d'água

Pode parecer piada, preconceito ou exagero, mas prometo aos leitores, quase tudo que escrevo é pautado na verdade... creiam vocês ou não!
Um distinto cavalheiro português, instruído e curioso, tendo desembarcado a trabalho no Brasil, pôde experimentar os sabores da nossa terra. Oportunamente estivemos ambos em Salvador, onde ouvi a surpreendente narração.
Sem papas na língua, confessou-me ele a súbita maré de azar que lhe afogava. Sua visão das belezas-naturais soteropolitanas fora repentinamente embaçada por uma conjuntivite, que lhe obrigou a recolher-se durante um tempo. Contudo, no calor de uma tarde que arde, não resistiu a um passeio pela praia, onde, irritado pela coceira, decidiu lavar os olhos com água do mar, no intuito de desinfetar a vermelhidão que lhes tomava. Trágica opção! Os olhos quase saltaram pra fora e, em menos de uma hora, estava ele no hospital.
Segundo o próprio, nem o médico acreditou no que acabara de se passar, exclamando espantado:
– O que?!
Depois de justificar-se, ficou calado, ouvindo o doutor e sua prescrição. O colírio... o colírio... o colírio...
Acontece que este nome, ao qual estamos acostumados, não existe em Portugal, onde o nome dado ao medicamento, originado do conta-gotas, é “gotas para os olhos”. Aliás, tudo que se pinga deste mesmo modo, é por lá tomado assim, mas depois de alguma conversa, entendeu o português, do que o médico falava.
Terminada nossa refeição, concomitante a tal narração, ofereci-lhe uma xícara de café, dizendo que naquele restaurante, nos era dado por cortesia. Quando se aproximou a garçonete, trazendo um suco em sua bandeja, e perguntando se era nosso tal pedido, cordialmente respondemos que não e disse ele sem hesitação:
– Mas a cortesia...
A garçonete embaraçada, não entendia se ele brincava, querendo o suco sem pagar... quando interrompi:
– Queremos dois cafés!
E me apressei em lhe explicar o sentido daquela palavra, até que chegou nossa bebida. Ele não teve dúvidas, ao pegar o adoçante exclamou de cabeça erguida:
– Vou pingar o meu colírio!
Eram gotas de aspartame... que no seu entendimento teriam a mesma significação.
– Não! A palavra colírio é usada apenas para o medicamento...
Notei que ele estava confuso, não percebendo qual o uso devia dar pra palavra “gotas” e com auxílio de um copo d’água mostrei que as pequenas parcela de líquido, seja lá como tiverem sido criadas, podem assim ser denominadas.
– Mas a isto chamamos pingas! – disse-me ele numa só toada.
Segurei minha gargalhada, revelando que no Brasil também havia pingas, como sinônimo de cachaças...
Despedimo-nos bem-humorados, mas soube eu que, num outro dia... num boteco em que parara, o cavalheiro português ao bebericar um café expresso ainda não adoçado, disse imediatamente ao rapaz que ao balcão trabalhava, que ali faltavam pingas... E se já estava complicado dele se entender naquele lugar... imagine embriagado!



João F. A. Cunha
(21/09/2009)

domingo, 16 de agosto de 2009

Se me visse como poeta
e não assim tão poesia,
certamente dormiria em si esta alegria
de me ter em suas mãos.
Se você não mais me olhasse
entre essas linhas,
repararia em pouco tempo meus detalhes...
corriqueiros destemperos,
que costumo apagar.
E num piscar
acordaria com palavras menos sórdidas,
e com as mais... se chocaria!
Se deixasse de-solar-se
pelo brilho das tristezas
que carrego em minha íris,
circundadas de amor...
"Não te olvides"
que ali enxergaria
a escuridão retida em mim.
E nas lágrimas talhadas
pelas poucas pobres rimas,
refletiria...
dolorida demais pra espiar
meus pluriversos em você.


João F. A. Cunha